Transições de Cuidado em Pacientes Internados: desafios e práticas de segurança

Está não é uma tradução oficial do artigo “Inpatient Transitions of Care: Challenges and Safety Practices” de Anna Satake PhD, MSN, GCNS, RN e Vanessa McElroy, MSN, PHN, ACM-RN, IQCI, originalmente publicado no portal PS Net em 27 de março de 2024.

Contexto

As transições de cuidado ocorrem frequentemente durante internações hospitalares e apresentam riscos notáveis associados à comunicação, ao gerenciamento de medicamentos e à preparação dos cuidadores. As transições de cuidado em pacientes internados abrangem as ações e procedimentos associadas à movimentação de um paciente entre diferentes níveis de atenção à saúde, ambientes, ou dentre membros da equipe ou turnos dentro de um hospital. Transições sem falhas são vitais para manter a continuidade e a qualidade do cuidado ao paciente e à sua família. Este Guia explorará os riscos típicos de segurança do paciente ligados às transições de cuidado em pacientes internados, bem como estratégias para minimizar e mitigar esses riscos. Outros tipos de transições, como transições entre turnos, entre instalações de saúde ou do hospital para casa, são discutidos em outros Guias da PSNet (Transferências e Encerramentos, Planejamento de Alta e Transições de Cuidado).

Desafios e Ameaças à Segurança do Paciente

Considere um cenário onde um paciente – Sr. H, um homem de 80 anos – chega ao departamento de emergência (DE) após um acidente de carro e não consegue relatar seu histórico médico. Em meio ao caos do DE, informações médicas cruciais são perdidas. Devido à ausência de um familiar ou cuidador, a equipe de saúde não sabe que o Sr. H usa aparelhos auditivos bilaterais e tem histórico de reação ao difenidramina (um anti-histamínico), resultando em delírio e alucinações. O Sr. H é transferido para a sala de cirurgia para o reparo de múltiplas fraturas. Posteriormente, o Sr. H é transferido para uma unidade de cuidados críticos, e seus medicamentos corriqueiros — aqueles que costuma usar em casa —, como gabapentina para neuropatia e fluoxetina para depressão, estão ausentes das ordens de medicamentos pós-operatórias. À noite, o Sr. H está inquieto, o que leva a prescreverem difenidramina para o sono. Na manhã seguinte, o paciente apresenta confusão. O Sr. H é transferido novamente para a unidade médica/cirúrgica. A família do Sr. H chega e pergunta sobre seus aparelhos auditivos perdidos e discute os medicamentos com o médico pela primeira vez, expressando preocupação com a reação adversa ao difenidramina e a ausência dos medicamentos do dia a dia. O médico prontamente ajusta a medicação.

A cada transferência entre ambientes de cuidado e equipes de tratamento, o potencial de falhas de comunicação introduz oportunidades para desfechos adversos. A comunicação eficaz entre as equipes de cuidado é vital para garantir resultados de saúde favoráveis, como maior satisfação do paciente, adesão ao tratamento e melhoria do estado de saúde geral.

Quebras de Comunicação

Equipes de Saúde

A participação de numerosas equipes no processo de comunicação, onde muitos elos na cadeia podem ser quebrados é o motivo pelo qual a comunicação deficiente tem sido identificada como um significativo contribuinte para eventos adversos na segurança do paciente, como erros médicos. Além disso, a falta de protocolos de comunicação padronizados e o atraso no compartilhamento de informações do paciente contribuem para variações nas práticas de troca de informações, aumentando a probabilidade de erros e omissões.

Dentro das instalações de saúde, os pacientes recebem cuidados de diversas equipes ao longo do tratamento. É crucial estabelecer uma comunicação eficaz e transferências entre essas equipes para garantir a transmissão precisa de informações médicas relevantes, também as preferências do paciente. As transferências (discutidas em mais detalhes em outro Guia da PSNet) servem como um meio de transferir informações entre os profissionais durante as mudanças de turno, quando um paciente se desloca entre departamentos ou quando transita entre diferentes equipes de cuidado ou quando é transferido para outra instalação.

O uso de registros eletrônicos de saúde desempenhou um papel essencial na melhoria da comunicação durante as transferências. No entanto, quando ocorre uma transferência com informações insuficientes do paciente durante essas transições, pode levar à falta de comunicação de detalhes vitais do paciente. A comunicação abaixo do ideal pode contribuir para vários desfechos negativos, incluindo a diminuição da adesão ao tratamento, insatisfação do paciente e a utilização ineficiente de recursos.

Pacientes, Famílias ou Cuidadores

A doença aguda, mudanças nas condições médicas, hospitalização e eventos adversos impõem uma carga significativa ao paciente, suas famílias e seus cuidadores. Há pouquíssima pesquisa sobre a correlação entre o envolvimento do paciente/família e a segurança do paciente, levando os profissionais a não terem uma estratégia eficaz de intervenções. O estresse excessivo durante a hospitalização também pode afetar a capacidade de alguém de se comunicar, receber e reter informações e/ou educação, o que abala as transições seguras e o planejamento do cuidado.

A alfabetização em saúde, barreiras linguísticas e diferenças culturais podem contribuir para a confusão, resultando na participação insuficiente dos pacientes e de suas famílias na compreensão das informações médicas e na falta de participação no processo de tomada de decisão.

Erros de Medicação

Estima-se que 60% dos erros de medicação ocorram durante as transições de cuidado e levam a hospitalizações evitáveis e a estadias prolongadas no hospital. Mudanças nos ambientes de cuidado, a troca e o compartilhamento de informações entre vários membros da equipe de cuidado podem causar erros nas ordens de prescrição, ajustes de dosagem ou protocolos de administração de medicamentos – todos os quais podem comprometer a segurança do paciente. A comunicação inadequada sobre mudanças na medicação pode deixar os pacientes e cuidadores desinformados, levando à não adesão do tratamento e ao aumento dos riscos.

Estratégias para Melhorar a Segurança do Paciente

Para abordar esses riscos é vital criar redes de segurança dentro dos sistemas para garantir transições suaves com riscos mínimos associados. O objetivo principal de uma transição de cuidado eficiente em pacientes internados é promover uma experiência contínua e centrada no paciente, bem como otimizar a troca precisa de informações, diminuindo assim o risco de erros médicos, elevando a qualidade geral do cuidado e, por conseguinte, melhorando os desfechos dos pacientes.

Comunicação Eficaz entre Equipes de Saúde

A transferência de cuidados ao paciente envolverá consistentemente uma troca complexa de informações do paciente e um processo de comunicação eficaz. A comunicação assertiva entre os profissionais de saúde e os pacientes é vital para a segurança do paciente e a qualidade do cuidado recebido. Melhorar a comunicação entre os provedores, definir claramente os papéis e estabelecer recursos robustos produzem resultados positivos.

Portanto, estabelecer padrões de comunicação entre o pessoal e os provedores em vários pontos de cuidado durante a transição de um paciente entre locais ou quando o cuidado é transferido entre turnos pode melhorar a segurança.

Apesar dos esforços consideráveis para melhorar o processo de transferência, a troca de informações entre os provedores continua sendo subótima. Para melhorar a comunicação da equipe, existem várias práticas recomendadas e ferramentas baseadas em evidências que podem auxiliar na comunicação entre os membros da equipe, como o TeamSTEPPS.

Provedores e pessoal também devem considerar o conceito de rounds rápidos, uma versão concisa das rounds de alta. Um estudo recente indica que rounds breves realizados em um ambiente multidisciplinar podem melhorar a comunicação entre os membros da equipe, reduzir o tempo de permanência do paciente e garantir a continuidade do cuidado.

Envolvimento do Paciente e da Família

O engajamento ativo e a compreensão das informações médicas e dos objetivos do cuidado por parte do paciente e de sua família são essenciais para a participação nos cuidados de saúde, a adesão aos planos de cuidado e os desfechos positivos em saúde. Isso envolve garantir que os pacientes e as famílias tenham tempo e espaço suficientes para participarem ativamente, permitindo que suas vozes, preocupações e esclarecimentos sejam ouvidos e atendidos prontamente. Um exemplo de ferramenta para apoiar o engajamento do paciente e da família é a ferramenta I-PASS Centrada no Paciente e na Família, que fornece uma estrutura formal de rounds centradas na família.

Outro aspecto integral do compromisso da saúde em alcançar resultados de qualidade envolve um foco na alfabetização em saúde e no reconhecimento da diversidade cultural. Os níveis de alfabetização em saúde evoluem com a experiência em navegar por várias circunstâncias de saúde e em fazer escolhas relacionadas à saúde. A abordagem SHARE, desenvolvida pela Agência de Pesquisa e Qualidade em Saúde (AHRQ) fornece um modelo para engajar pacientes e famílias em todas as decisões no cuidado, incluindo transições no cuidado, e oferece dicas de comunicação sobre alfabetização em saúde e cultura. É fundamental que cada membro da equipe de saúde avalie e reavalie consistentemente os níveis de alfabetização em saúde, especialmente durante os processos de educação e compartilhamento de informações.

Segurança Medicamentosa

A reconciliação de medicamentos faz parte dos Objetivos Nacionais de Segurança do Paciente desde 2005. Além disso, o processo de reconciliação de medicamentos é reconhecido como uma intervenção vital em cada interseção no sistema de saúde para garantir a precisão da medicação nas transições de cuidado, conforme descrito na iniciativa de Ação em Segurança do Paciente (High 5s) da Organização Mundial da Saúde. A reconciliação de medicamentos deve ser a prática padrão estabelecida em cada transição de cuidado envolvendo a prescrição de novos medicamentos, quando ajustes nas ordens existentes são feitos, ou a adição de “medicamentos de casa” e “medicamentos sem prescrição”. Esta prática garante a geração da compilação de detalhes de medicamentos mais precisa e abrangente (a melhor história medicamentosa possível) e deve ser comunicada verbalmente e por escrito aos pacientes, cuidadores e outros profissionais de saúde envolvidos na equipe de tratamento. Além disso, a intervenção do farmacêutico para a educação do paciente e/ou reconciliação de medicamentos mostrou reduzir erros de medicação após a alta e diminuir a readmissão.

Outra ferramenta é o kit de ferramentas Medication at Transitions and Clinical Handoffs (MATCH) da AHRQ, que fornece orientação passo a passo para as organizações melhorarem seu fluxo de trabalho de reconciliação de medicamentos. Além de um processo robusto de reconciliação de medicamentos, a educação do paciente também é reconhecida como uma estratégia com influências substanciais na minimização de erros de medicação. Estratégias sobre como o pessoal pode incorporar famílias nas comunicações de medicamentos são incluídas como parte das práticas de segurança nas transições de cuidado.

Resumo

Transições de cuidado eficientes em pacientes internados, centradas na coordenação, comunicação e colaboração são imperativas para manter a continuidade e a qualidade do cuidado para o paciente e a família. Os pacientes que se sentem ouvidos e valorizados são mais inclinados a participar de seu cuidado, aumentando assim a segurança do paciente, melhorando os resultados e reduzindo o risco de problemas adversos. Abordar esses riscos envolve implementar processos de comunicação padronizados, garantir protocolos robustos de reconciliação de medicamentos, promover a colaboração interdisciplinar e oferecer educação e treinamento contínuos para os profissionais de saúde. Se o hospital onde o Sr. H estava, tivesse implementado esses processos, ele poderia ter tido um cuidado melhor, como garantir que seus aparelhos auditivos estivessem disponíveis para melhor engajar-se em seu cuidado, e o engajamento da família para garantir que o histórico médico e a reconciliação de medicamentos fossem precisos. Focar nesses aspectos permite que os hospitais elevem a segurança e a qualidade do cuidado, particularmente durante as transições de cuidado críticas e frequentemente precárias.

Anna Satake PhD, MSN, GCNS, RN

Especialista em Enfermagem Clínica Geriátrica Professora Assistente Clínica Departamento de Geriatria UC Davis Health

[email protected]

Vanessa McElroy, MSN, PHN, ACM-RN, IQCI

Diretora, Transições de Cuidado e Gestão de Saúde Populacional UC Davis Health [email protected]

Referências

  1. Syyrilä T, Vehviläinen-Julkunen K, Härkänen M. Comunicação em incidentes de medicação: análise de método misto dos relatórios de incidentes dos hospitais usando frases indicadoras baseadas na literatura. J Clin Nurs. 2020;29(13-14):2466-2481. [Texto completo gratuito]
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Este projeto foi financiado sob o contrato número 75Q80119C00004 da Agência de Pesquisa e Qualidade em Saúde (AHRQ), Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Os autores são os únicos responsáveis pelo conteúdo, achados e conclusões deste relatório, que não representam necessariamente as opiniões da AHRQ. Os leitores não devem interpretar qualquer declaração neste relatório como uma posição oficial da AHRQ ou do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Nenhum dos autores possui qualquer afiliação ou envolvimento financeiro que conflite com o material apresentado neste relatório. Veja os Avisos Legais da AHRQ.

FONTE: Inpatient Transitions of Care: Challenges and Safety Practices | PSNet (ahrq.gov)

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