Telemedicina e Segurança do Paciente

Está não é uma tradução oficial do artigo “Telemedicina e Segurança do Paciente”, produzido por Grace O’Malley, PhD, Ulfat Shaikh, MD, MPH, MS e James Marcin, MD, MPH, originalmente publicado no portal PS Net em 14 de dezembro de 2022.

CONTEXTO

Nos últimos anos, a telemedicina, ou a prestação de cuidados de saúde a distância utilizando tecnologias de telecomunicações, teve um impacto dramático nas modalidades e modelos de prestação de serviços de saúde utilizados por práticas e sistemas de saúde em todo o país.

Sua expansão exponencial, impulsionada pela pandemia de COVID-19, foi ainda mais facilitada pela remoção de políticas e regulamentações restritivas por parte dos governos federal e estaduais.

A flexibilização das restrições relacionadas ao local de origem, a oportunidade de paridade nos pagamentos e a ampliação dos tipos de profissionais que podem usar a telemedicina para serviços contribuíram para a maior adoção desse recurso.

Com o uso expandido, também houve um aumento na forma como as tecnologias de telemedicina são utilizadas na prática clínica, fornecendo um portfólio de opções para pacientes e provedores que incluem:

  • Consultas médico-paciente,
  • Consultas entre profissionais de saúde,
  • Consultas eletrônicas (eConsults),
  • Portais de mensagens e texto,
  • Tecnologias de monitoramento remoto de pacientes, e
  • Modelos híbridos que utilizam tecnologias síncronas e assíncronas.

A rápida expansão da telemedicina e a variação na implementação de novos modelos de atendimento na prática médica resultaram em preocupações emergentes sobre a segurança do paciente.

Essas preocupações são exacerbadas pelo fato de que práticas clínicas e sistemas de saúde foram obrigados a implementar rapidamente a telemedicina nas operações existentes durante o início da pandemia de COVID-19, reduzindo o tempo e a oportunidade para formalizar processos e medidas que garantissem a segurança e equidade do paciente.

Embora muitas preocupações de segurança relacionadas à telemedicina sejam semelhantes às do atendimento presencial, surgiram considerações específicas relacionadas à segurança devido às modalidades únicas de cuidado na telemedicina.

Figura 1: Modalidades de entrega digital e telemedicina

Preocupações com a Segurança do Paciente

Erros de Diagnóstico

Vários aspectos das consultas de telemedicina podem contribuir para erros de diagnóstico:

  1. Coleta inadequada do histórico médico devido à comunicação ineficaz.
  2. Exames físicos muito limitados, omitindo modalidades importantes como auscultação e a análise de áreas privadas ou inacessíveis do corpo.
  3. Dependência de pacientes e suas famílias para medir sinais vitais ou descrever achados físicos.

O uso de serviços de telemedicina com provedores que não fazem parte da equipe de atendimento de rotina do paciente foi associado à necessidade de maior acompanhamento presencial, levantando preocupações sobre a segurança do paciente.

No entanto, acredita-se que esses riscos podem ser mitigados quando a telemedicina é fornecida por clínicos que fazem parte da unidade médica habitual do paciente, com acesso aos registros médicos e a possibilidade de organizar exames, acompanhamentos e encaminhamentos a especialistas.

Em algumas circunstâncias, o cuidado por telemedicina pode resultar em uma coleta de informações mais precisa e honesta.

Comparados a interações presenciais, os pacientes são mais propensos a revelar informações com precisão em consultas remotas. Pessoas interagindo diretamente com computadores relatam menor medo de revelar informações e demonstram emoções mais intensamente do que em interações presenciais.

Apesar desse possível benefício da telemedicina para a segurança do paciente, alguns modelos de telemedicina mostraram falhas na comunicação e no envolvimento do paciente. Por exemplo, triagens rotineiras de saúde mental e comportamental, como questionários sobre depressão, ansiedade e abuso de substâncias, podem ser realizadas com menos frequência do que em consultas presenciais.

Segurança de Medicamentos

Uma comunicação subótima pode afetar a qualidade da reconciliação medicamentosa e levar a eventos adversos relacionados a medicamentos, especialmente se os modelos de telemedicina não integrarem intencionalmente equipes multidisciplinares, como farmacêuticos, para garantir a reconciliação detalhada dos medicamentos.

A variação na alfabetização do paciente, alfabetização em saúde e proficiência em inglês, bem como o acesso e habilidades tecnológicas, afetam a reconciliação medicamentosa e a entrega de orientações sobre o uso de medicamentos.

A segurança do paciente pode ser comprometida se as consultas por telemedicina não incluírem ferramentas acessíveis, como resumos pós consulta, para comunicar esquemas terapêuticos.

Quando a telemedicina é utilizada para chamadas clínicas sob demanda, com sistemas e provedores que não fazem parte da unidade médica do paciente, algumas pesquisas indicam que a qualidade pode ser inferior ao atendimento presencial.

Contudo, quando os próprios provedores utilizam a telemedicina para engajar seus pacientes, a satisfação do paciente e os resultados clínicos são aprimorados. Pesquisas demonstraram que a satisfação do paciente com consultas por telemedicina é semelhante ou, em alguns casos, superior às consultas presenciais, quando os provedores fazem parte de sua prática habitual.

Uma melhor experiência de cuidado está associada a maior adesão às recomendações clínicas, cumprimento das terapias recomendadas e menos consultas de acompanhamento perdidas.

Escalonamento do Atendimento

O monitoramento remoto de pacientes com dispositivos médicos periféricos, como oxímetros de pulso, medidores de pressão arterial e balanças, e o monitoramento remoto de dispositivos médicos existentes, como monitores de glicose e bombas de insulina, podem aumentar a segurança do paciente ao monitorar proativamente alterações em condições médicas.

Embora os resultados de pesquisas sejam variados, o monitoramento de pacientes com condições médicas crônicas, como insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão, diabetes e doença pulmonar obstrutiva crônica, pode melhorar a segurança do paciente ao reduzir a frequência de exacerbações médicas.

Em pacientes com condições agudas, como COVID-19, avaliações domiciliares diárias usando oxímetros de pulso e monitoramento domiciliar foram eficazes para identificar pacientes que precisavam de avaliação no departamento de emergência e hospitalização, além de apresentarem menor mortalidade.

Considerações de Equidade em Saúde

Antes da pandemia de COVID-19, a telemedicina era utilizada principalmente para aumentar o acesso à saúde em comunidades rurais e populações com condições médicas crônicas e complexas.

A telemedicina melhorou o acesso ao atendimento e a segurança do paciente ao aumentar a adesão às diretrizes baseadas em evidências e reduzir atrasos no atendimento e consultas perdidas.

No entanto, a rápida transição para a telemedicina durante a pandemia forçou sua incorporação nos fluxos de trabalho existentes de prestação de serviços, o que pode exacerbar desigualdades no acesso.

Por exemplo, pesquisas revelaram que idosos, minorias raciais e étnicas, e indivíduos menos favorecidos têm menos probabilidade de acessar cuidados por telemedicina em comparação ao atendimento presencial ou por telefone. Modelos e fluxos de trabalho de telemedicina que levam em conta determinantes sociais de saúde e monitoram métricas para populações vulneráveis à adoção desigual podem ajudar a reduzir riscos à segurança do paciente.

Estratégias de Implementação da Telemedicina para Melhorar a Segurança do Paciente

Estratégias para melhorar a segurança do paciente exigem atenção à implementação eficaz, educação, protocolos de segurança e abordagens de melhoria contínua da qualidade. As estratégias sugeridas pelos autores incluem:

1.      Educação de Profissionais de Saúde

Treinamento sobre considerações de segurança do paciente e práticas baseadas em evidências para conduzir consultas de telemedicina, incluindo habilidades eficazes de comunicação.

2.      Manutenção da Coordenação do Cuidado

Garantir que o cuidado permaneça centralizado na unidade médica habitual do paciente, sempre que possível, para minimizar a fragmentação do cuidado.

3.      Protocolos Operacionais

Integração de protocolos nos sistemas de telemedicina para identificar situações clínicas onde o uso da telemedicina pode impactar negativamente a segurança do paciente. Revisão contínua desses protocolos, relatórios de segurança, feedback dos pacientes e monitoramento por equipes multidisciplinares.

4.      Ferramentas de Comunicação Acessíveis

Disponibilizar ferramentas de fácil acesso para que pacientes e cuidadores possam compreender esquemas terapêuticos e planos de cuidados.

5.      Pesquisa Contínua

Realizar estudos contínuos para definir melhor quais tipos de cuidados podem ser realizados com segurança por telemedicina, avaliando o impacto de fatores individuais dos pacientes, determinantes sociais de saúde e a fidelidade do modelo de telemedicina utilizado.

Conclusão

O avanço rápido da telemedicina oferece oportunidades únicas para transformar os cuidados de saúde, mas também exige abordagens deliberadas para mitigar os riscos à segurança do paciente. Com protocolos bem desenvolvidos, treinamento adequado, ferramentas de comunicação eficazes e atenção aos determinantes sociais de saúde, é possível potencializar os benefícios da telemedicina, ao mesmo tempo em que se minimizam os riscos associados a essa modalidade de cuidado.

 

  

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Este projeto foi financiado sob o contrato número 75Q80119C00004 da Agência para Pesquisa e Qualidade em Saúde (AHRQ), do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.

Os autores são exclusivamente responsáveis pelo conteúdo, achados e conclusões deste relatório, que não representam necessariamente as opiniões da AHRQ. Os leitores não devem interpretar qualquer declaração neste relatório como uma posição oficial da AHRQ ou do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA. Nenhum dos autores possui afiliação ou envolvimento financeiro que entre em conflito com o material apresentado neste relatório.

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